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Pai de adolescente morta pede alteração na maioridade penal

Flávio Freire (SÃO PAULO) - O advogado Ari Friedenbach, de 43 anos, diz que tem uma missão: fazer com que a morte de sua filha, a estudante Liana Friedenbach, de 16 anos, não tenha sido em vão. Para isso, está disposto a lutar para que o governo altere as leis relativas a crimes cometidos por menores. Liana foi brutalmente assassinada juntamente com o namorado, Felipe Caffé, de 19. Um adolescente foi o mentor do crime que chocou o país. Tenso com o barulho de helicópteros e de carros da PM que, na sexta-feira, procuravam assaltantes de um prédio vizinho ao seu, Friedenbach disse estar indignado com governantes, especialmente o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, contrários à redução da maioridade penal. Abatido pelas seguidas noites sem dormir, o pai de Liana procura driblar a rotina recebendo amigos, parentes e jornalistas. “Ou faço isso ou fico louco”, disse, em entrevista ao GLOBO, na qual não conseguiu evitar as lágrimas. O ministro da Justiça é contrário à redução da maioridade penal. Como o senhor recebeu a declaração? ARI FRIEDENBACH: A gente tem um ministro dentro do gabinete, com filhos protegidos, assim como Lula e o governador Geraldo Alckmin. Acontece que os filhos deles não morrem, quem morre são os seguranças. Como não temos essa condição, nossos filhos estão morrendo. Para mim, eles estão burramente contra essa posição. Na prática, de que forma o governo deveria atuar para diminuir a violência? FRIEDENBACH: Tenho receio de ficar gritando ao vento, mas quero acreditar que a morte da minha filha vai servir para alguma coisa. A polícia no Brasil é vista com desconfiança e o Estatuto da Criança e do Adolescente é considerado antiquado. O que mudar primeiro? FRIEDENBACH: Obviamente, toda essa violência começa no nascimento de uma criança desamparada. Precisamos de medidas simples e baratas, muito mais baratas do que manter um canalha na cadeia. Enquanto ele toma banho de sol, passo o dia sob luz de neon, trabalhando. O senhor é favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. FRIEDENBACH: Uma criança de 7 anos que tem condições de pegar um revólver e dar tiro em alguém, tem de saber responder pelo que fez, não importa a idade em que cometeu o crime. O ministro diz que não se pode misturar um adolescente ainda em formação com presos de alta periculosidade. FRIEDENBACH: Um cara como o que matou minha filha está deformado para o resto da vida. É o cúmulo da ignorância achar que um ser desses tem recuperação. Nem um sistema excelente conseguiria recuperá-lo. Basta o ministro sofrer o que eu sofri para entender o que estou falando. Mas não desejo isso nem para o meu pior inimigo. Há falhas nos sistemas judiciário e penitenciário que só fazem aumentar a violência? FRIEDENBACH: Que sistema recupera um monstro de 40 anos que estupra e esfaqueia uma criança indefesa? Gente como essa jamais vai ser recuperada, isso é lixo e tem que ser posto à parte da sociedade. O senhor é a favor da pena de morte? FRIEDENBACH: Sou absolutamente contra. Tenho convicções morais que me levam a crer que temos a obrigação de respeitar a vida de todos. Quais as principais mudanças que o senhor pretende propor no Estatuto da Criança e do Adolescente? FRIEDENBACH: O Estado tem a obrigação de mostrar a cara deste menor que matou a minha filha, temos o direito de ver a cara e de saber o nome dele. Se amanhã eu cruzar na rua com ele, sei que é um assassino. O senhor pretende se encontrar com o ministro? FRIEDENBACH: Pretendo, mas não sei se vou ter espaço. Não sei até quando vou ser ouvido. O que não pode acontecer é aqueles surdos no Congresso continuarem sem nos ouvir. O Congresso não pode continuar surdo. O senhor consegue entender hoje por que sua filha viajou mentindo para os pais? FRIEDENBACH: Consigo. Na minha geração, fomos educados a mudar o comportamento em relação aos filhos, sendo mais amigos e tendo mais diálogo. O que precisamos agora é fazer com que os filhos mudem sua atitude de adolescente, que é a do prazer imediato. O senhor teria permitido a viagem para acampar num lugar daqueles? FRIEDENBACH: Não. Por isso ela não contou, justamente para não ouvir um não. O senhor sentia dificuldade de dizer um não à sua filha? FRIEDENBACH: Sentia dificuldades como qualquer pai de jovens. Mas ela ouvia o não e tudo bem. Seguramente tinha o mundinho dela, mas não era uma mentirosa contumaz.