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Bispos de SP defendem reformas no sistema prisional: “Peçamos a Deus o dom da paz!”

Representando os bispos da Província Eclesiástica de São Paulo, o cardeal Dom Cláudio Hummes leu, durante uma manifestação da Igreja Católica de São Paulo contra a violência, realizada no domingo, 27/8, pela manhã, na Catedral da Sé, no centro da cidade, uma mensagem contra a violência e pela reforma do sistema penitenciário. A TV Globo divulgou com destaque em sua programação dominical, durante a tarde e no Fantástico. Foi a primeira manifestação dos católicos após os ataques do PCC à capital paulista. Leia aqui a íntegra da carta dos bispos.

CONTRA A VIOLÊNCIA E PELA REFORMA DA SEGURANÇA PÚBLICA E REFORMA PRISIONAL Mensagem dos Bispos da Província Eclesiástica de São Paulo (Cada Paróquia e Comunidade em toda a Província Eclesiástica faça neste domingo, dia 27 de agosto, uma especial Celebração pela Paz, na qual seja lida esta mensagem. Seria significativo se, no dia 27, o povo viesse à celebração com lenços brancos e colocassem uma bandeira branca na janela de sua casa, apartamento, escritório, casa comercial, fábrica, escola etc.). Eis a mensagem, como segue:

 

Caros irmãos e irmãs de nossas dioceses, paróquias e comunidades,

A Paz de Cristo esteja convosco! Desde maio passado, o nosso Estado de São Paulo, principalmente as cidades da Grande São Paulo e arredores, foram vítimas de numerosos e violentos ataques por parte do crime organizado, primeiro contra as forças de segurança do Estado e depois também contra a sociedade civil e suas instituições. As polícias do Estado reagiram em sua própria defesa e em defesa dos cidadãos. Não podemos deixar de apoiar as ações da polícia em favor da segurança, que é direito do cidadão. Contudo, daí resultaram muitos feridos e mortos brutalmente, de ambos os lados, entre os quais, segundo diversas denúncias, também inocentes. Por isso, com razão, está em curso uma investigação ampla por parte do Poder Público para apurar e punir todo tipo de crime, que tenha ocorrido. Não podemos deixar de assinalar que os ataques do crime organizado continham também ingredientes de terrorismo, ou seja, tentativas de aterrorizar a sociedade atacando civis inocentes, instituições e serviços públicos, incendiando ônibus, seqüestrando jornalistas para extorquir a publicação de manifesto. Diante destes fatos, queremos primeiro dizer que repudiamos toda esta violência desencadeada pelo crime organizado e suas causas profundas. Rezamos e nos solidarizamos com todas as pessoas e famílias, de ambos os lados do conflito, que sofreram violência ou tiveram pessoas inocentes assassinadas dentre seus familiares, parentes ou amigos.

 

Em segundo lugar, queremos declarar que: 1. É preciso repudiar vigorosamente, e sempre, todo tipo de violência, venha de onde vier. Violência só gera violência e destrói a paz. 2. É preciso construir incansavelmente a paz. Diz São Paulo: "Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem" (Rm 12,21). É preciso educar para uma cultura de paz e nesta educação tem papel importante a família, a escola, a Igreja e os grandes meios de comunicação. Disse Jesus: "Bem-aventurados os que promovem a paz" (Mt 5,9). 3. É preciso rezar pela paz, pois a paz é também graça de Deus, que contudo exige nossa colaboração, pois somos responsáveis pela construção da nossa história e a transformação de nossa sociedade, segundo os critérios do Reino de Deus. Os anjos cantaram na noite de Natal: "Paz na terra aos homens que Deus ama", aos homens de boa vontade (Lc 2,14). 4. Além disso, precisamos exigir do Poder Público, entre outras reformas, a Reforma da Segurança Pública. Isso requer investir mais em qualificar e aparelhar nossas polícias e dar-lhes uma remuneração mais justa. Requer também investir muito e com urgência na organização de um qualificado e amplo Serviço de Inteligência das forças de segurança pública para combater a criminalidade e, principalmente, o crime organizado. 5. Ao mesmo tempo, é urgente exigir também a Reforma Prisional. Vale lembrar que o Estado de São Paulo é o Estado que, proporcionalmente, mais prende criminosos. Isso é bom, porque os delinqüentes precisam ser detidos, julgados, punidos e recuperados. Contudo, para colocar todos na prisão seria necessário que o Estado construísse uma nova prisão cada mês. Isso demonstra que há algo de profundamente errado.

 

Se olharmos mais de perto a situação, veremos que há diversas reformas que deveriam ser feitas. Primeiro, os que foram detidos precisam ser julgados mais rapidamente para que possam sair da detenção os que forem absolvidos. Os que forem condenados certamente não precisam todos pagar sua pena na prisão. Na opinião de muitos peritos na área, mais da metade poderia pagar seu crime com penas alternativas fora da prisão. Desse modo, além de diminuir a superlotação das prisões, se evitaria que tantos entrassem na escola do crime em que se transformaram nossas prisões e se filiassem ao crime organizado. Além disso, hoje há milhares de presos que já cumpriram sua pena, mas continuam presos por falta de defensores públicos e lentidão da justiça em liberar os alvarás de soltura ou promover a progressão da pena. E há urgente necessidade de humanizar as prisões. As condições desumanas e injustas em que vivem os presos constituem um dos fatores do fortalecimento do crime organizado, das rebeliões, dos assassinatos dentro das prisões e tantos outros males que mostram como nosso sistema penitenciário é altamente deteriorado e muitas vezes cruelmente injusto. Na realidade, a verdadeira paz é "obra da justiça" (Is 32,17).

 

Caros irmãos e irmãs! Diante dos ataques violentos do crime organizado em São Paulo, a sociedade não pode aceitar o medo e tornar-se refém dos criminosos. É preciso continuar a vida normal, ainda que tomando novos cuidados para não ser alcançado pela criminalidade. Ao mesmo tempo, precisamos procurar e arrancar pela raiz as causas profundas que estão na origem da organização do crime, de seus intentos e métodos. Precisamos exigir do Poder Público as reformas necessárias. Precisamos ser mais solidários com os pobres combatendo a miséria, a fome e a marginalização social, que constituem uma enorme injustiça social e até mesmo levam pessoas a buscar ajuda junto ao mundo do crime.

 

Precisamos viver e propor com mais clareza e eficiência os valores éticos, espirituais e religiosos, cuja perda causou e causa enorme prejuízo para as famílias, a juventude e a sociedade em geral. Peçamos a Deus o dom da paz! Jesus Cristo, o Príncipe da Paz, nos ensina o caminho da construção da paz, que é fruto da justiça, do direito, do respeito pelos outros, do diálogo, do perdão mútuo, da colaboração. Ele nos disse: "Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros" (Jo 13,34). Não nos cansemos de amar, praticar a justiça e o direito, perdoar e fazer o bem. Então, a paz encontrará fundamentos duradouros. Deus nos abençoe a todos e nos guarde de todo mal! Nossa Senhora Rainha da Paz interceda por nós! São Paulo, 15 de agosto de 2006.

 

Assinam os Bispos da Província Eclesiástica de São Paulo: Cardeal Dom Cláudio Hummes, Arcebispo Metropolitano de São Paulo; Dom Nelson Westrupp, Bispo de Santo André e Presidente da CNBB Sul 1; Dom Emílio Pignoli, Bispo de Campo Limpo; Dom Fernando Legal, Bispo de São Miguel Paulista; Dom Fernando Antonio Figueiredo, Bispo de Santo Amaro; Dom Ercílio Turco, Bispo de Osasco; Dom Luiz Bergonzini, Bispo de Guarulhos; Dom Jacyr Francisco Braido, Bispo de Santos; Dom Ariton José dos Santos, Bispo de Mogi das Cruzes; Dom Odilo Pedro Scherer, Bispo Auxiliar de São Paulo e Secretário Geral da CNBB; Dom Manuel Parrado Carral, Bispo Auxiliar de São Paulo; Dom Pedro Luiz Stringhini, Bispo Auxiliar de São Paulo; Dom José Benedito Simão, Bispo Auxiliar de São Paulo; Dom Tomé Ferreira da Silva, Bispo Auxiliar de São Paulo; Dom Joaquim Justino Carreira, Bispo Auxiliar de São Paulo; Dom João Mamede Filho, Bispo Auxiliar de São Paulo.

 

 

Última atualização: Domingo, 07 Novembro 2010 16:58