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Viva a classe média, Marilena!

  • Por Macéias Nunes *
  • Publicado em economia
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A velha luta de classes continua? A velha luta de classes continua?

A esta altura da minha vida, depois de trabalhar durante 60 anos e de ter saúde e forças para continuar trabalhando no mínimo por mais 60, como espero, consegui chegar ao status de membro da classe média.

Sempre imaginei que jamais conseguiria conquistar este troféu da ascensão social sem apelar para coisas que não fossem o esforço pessoal, o trabalho honesto e a obediência à lei e à ética.

Não vou entrar em detalhes sobre os dados concretos do que, no meu caso, significa ter chegado a esse Everest social sem apelar para o alpinismo sinônimo. O teor do próprio texto deixará isso claro. Vou argumentar em cima de dois fatos reais que em certo momento me fizeram duvidar sobre se subi ou desci na escala social.

"Generalizar em cima de uma classe social qualquer, condenando-a ou absolvendo-a sem ser a partir de pressupostos muitos definidos, científicos mesmo, é coisa, no mínimo, de gente sem classe." - Macéias Nunes

O fato, porém, é que estando abaixo dela durante a maior parte da vida, sempre tive meus preconceitos secretos contra a classe média. Pensava e sentia a respeito como a antropóloga cujo nome não guardei e como Marilena Chauí.

A primeira se escandalizou quando, em uma reunião comunitária para levantar propostas sobre a criação do bairro do Alto Leme, na chegada da UPP às comunidades de Chapéu Mangueira e Babilônia, cometi a heresia de dizer que o que a classe pobre deseja é se tornar classe média. Foi como se eu dissesse que o que ela, a antropóloga, mais desejava na vida era se tornar pobre, em vez de querer passar da classe média a que pertencia à classe dos milionários. O fato, parece-me, é que tanto ela quanto Marilena Chauí rogariam todas as pragas do inferno sobre a classe rica caso chegassem lá. Não a abandonariam, porém, e provavelmente continuaram batalhando para pertencer a lista de Forbes – à qual amaldiçoariam também.

A velha luta de classes continua?

Marilena Chauí, num discurso para um público no mínimo acrítico, desceu a lenha na classe média à qual pertence: é medíocre, é fascista, é ignorante, é violenta, entre outras abjeções. Disse tudo isso em um tom apoplético, que, dependendo de seu histórico clínico, poderia levá-la desta terrível vida de membro da classe média para uma sociedade sem classes, isto é, para o paraíso marxista.

Diga-se, a propósito, que numa sociedade sem classes ou todos são ricos, ou todos são pobres, ou todos não são nem ricos nem pobres, isto é, são todos da classe média. A propósito, existem países – Cuba e Coreia do Norte, por exemplo – onde dona Marilena poderia viver sem se estressar com essa anomalia chamada classe média. Lá só existem duas classes: as dos que mandam e a dos que obedecem.

Enquanto a utopia socialista não se realiza, melhor dizer umas generalidades das do tipo que Marilena Chauí disse. No mundo, acredite-se ou não em Deus, existe gente boa e gente ruim em todas as classes. Existem gênios e mediocridades em todas as classes. Estão aí mesmo a antropóloga sem nome e Marilena Chauí, ambas da classe média, que não me deixam mentir.

Não vem ao caso saber se são gênios ou mediocridades. Se dizem que na classe média só existem mediocridades, é difícil admitir que as duas sejam as únicas exceções. A classe média é muito numerosa para produzir apenas dois gênios. Se argumentarem que o problema da classe média é exatamente o fato de não produzir nem gênios nem mediocridades, os fatos estão aí mesmo para desmenti-las. Einstein, embora o pai tenha sido dono de fábrica, que acabou falindo, era funcionário do registro de patentes. Classe média, por supuesto. Drummond era de classe média, assim como Guimarães Rosa. Marilena Chauí é da classe média.

Paciência, dona Chauí e doutora antropóloga

Nasci analfabeto, como a mãe do filho do Brasil. Meus pais, além de nascer nessa condição, continuaram nela, não por preguiça ou estupidez, mas porque em sua infância, adolescência, juventude e maturidade as autoridades – inspiradas prospectivamente por gente como as senhoras – achavam que era melhor ser pobre e analfabeto do que pertencer à essa maldita classe média capaz de apeá-las do poder.

Morei em favela, mas não achava isso melhor do que morar em bairro. Estudei em escola pública, mas não achava isso melhor do que estudar em escola particular. Fui trabalhador sem qualificação, mas não achava isso melhor do que ser um profissional qualificado – e vai por aí. Cursei universidade pública, sem cotas raciais. Hoje, consigo enxergar com meus próprios olhos o que muita gente como as senhoras e outras pessoas não conseguem.

A classe média é do bem. Tanto é do bem que Marilena Chauí e a antropóloga sem nome pertencem a ela. O problema é que nela há pessoas mais cultas, mais inteligentes, mais preparadas, mais sensíveis e mais corajosas do que outras – e essas, tendo também senso de autocrítica, entendem que generalizar em cima de uma classe social qualquer, condenando-a ou absolvendo-a sem ser a partir de pressupostos muitos definidos, científicos mesmo, é coisa, no mínimo, de gente sem classe.

Nenhuma.

* Macéias Nunes é jornalista e membro da classe média brasileira.

Atualizada: Sexta, 13 Novembro 2015 13:21