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Ladeira abaixo

  • Por Macéias Nunes, um cidadão comum
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Assisti ao Comício da Central na tevê preto e branco de algum vizinho da favela. Jango assumira o poder graças ao acordo que o elevou à condição de Rainha da Inglaterra e Tancredo Neves à de Primeiro Ministro. Era o parlamentarismo chegando para uma breve visita. Um plebiscito trouxe de volta o problemático presidencialismo de coalizão que tem levado o país a dar um passo para a frente e dois para trás em sua complicada trajetória histórica. Um nó górdio, afinal cortado pela espada dos militares. Implantado o regime ditatorial, foi deletada a coalizão.

Por ironia, o primeiro simulacro – na realidade, uma Sierra Maestra de chanchada - de luta armada tentando trocar a ditadura militar por uma outra, de feitio sovieto-cubano, ocorreu em minha terra natal, a Serra do Caparaó. Talvez em parte por isso, quando comecei a ter um pouco mais – ou menos – de noção das coisas, entrei num namoro firme com a esquerda. A luta armada não estava descartada, por supuesto.

Não lia Marx, indo de Luckács mesmo. Gostava demais de Tolstoi, em seu realismo crítico mais cristão e profético do que revolucionário. Já no jornalismo, procurei a redação do jornal clandestino Movimento, mas por azar – ou por sorte – na casa do Jardim Botânico não havia ninguém. Trabalhando no Sindicato dos Médicos, recebi sondagens diretas para mergulhar no subterrâneo da oposição de fato, quando a esquerda ganhou as eleições sindicais.

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O PT, em sua empáfia de partido acima do bem e do mal

Acabei não mergulhando, mas estava presente nas manifestações estudantis e na passeata dos cem mil em 68, embora já olhando meio desconfiado para aquela agitação toda. Veio o AI 5 e aí a coisa ficou muito complicada, mas dava para ver que a luta armada não tinha chance alguma de mudar as coisas. Aí passei a prestar atenção ao sábio e paciente combate político do Velho Faraó Ulysses e do onipresente Tancredo. Foram eles e seus guerreiros do parlamento e, claro, o povo nas ruas, no movimento das Diretas Já, que trouxeram a democracia de volta. Eu estava lá, no Comício da Candelária. Sempre conciliador, Tancredo foi para o Colégio Eleitoral contra Maluf e venceu. O PT, em sua empáfia de partido acima do bem e do mal, puniu três de seus deputados por votar na eleição, contra a orientação da direção nacional.

Veio Sarney e seu governo medíocre, abrindo ao final o caminho para a ascensão de Collor. Quando seu irmão Pedro escancarou as entranhas da corrupção colorida, fui de novo para as ruas. Lindbergh Farias e o PT não consideravam, então, golpismo algum a luta para apear do poder alguém eleito pelo voto popular. Não sei se algum dos petistas lembrou-se de argumentar com a eleição de Hitler pela população alemã, mas isso agora não interessa. O que interessa é que vendo o buraco em que Lula e Dilma jogaram o país, fui de novo para as ruas, bati panela, escrevi e discursei contra o governo e agora comemoro a consumação do impeachment.

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A narrativa do golpe é conversa fiada

A narrativa do golpe é conversa fiada. Dilma, arrogante, truculenta, mentirosa e incompetente, perdeu as condições de governabilidade. Ter sido guerrilheira e sofrido tortura e doença não a torna credora da democracia brasileira. Temer ainda precisa provar muita coisa. Se conseguir ser um Itamar, já estará de bom tamanho. Na sequência, em 2018, um político experiente, sem ranço ideológico, na linha de Tancredo, Ulysses, Juscelino e outros da mesma estirpe, tem uma chance maior ao menos de não fazer e dizer tanta bobagem quanto os luminares cegos do lulopetismo.

Desde sempre fui parlamentarista...

O presidencialismo de coalizão, porém, é um entrave para qualquer um. Por isso, desde sempre fui parlamentarista. Se houver uma mobilização para que ele seja afinal implantado, irei de novo para as ruas. Sem elas, para um cidadão apartidário como eu e outros tantos milhões pelo país afora, ninguém sobe ou desce. Não por acaso, moro em uma ladeira.

Atualizada: Quinta, 01 Setembro 2016 14:51