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A sensação de imortalidade, própria da juventude

  • Por Else Vergara *
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O termo “empoderamento”, importado do idioma inglês, significa mais que fortalecimento, pois inclui uma mudança da noção de si mesmo. Aí é que mora uma poderosa questão humana: saber-se.

Adultos são atormentados pelo vão entre a autoimagem, os sonhos, as projeções e a realidade. Lutam para esconder, ou se afundam nesse abismo, constroem pontes e circulam entre o sonho e os fatos.

O resultado é que há otimistas, realistas e derrotistas, respeitando a possibilidade de oscilar, experimentando sucesso, fracasso e desastre.

Mas qual é a origem dessa ideia distorcida de si próprio que engessa uns e liberta outros? Quando é que nos construímos? Quem nos edifica?

 

“Síndrome de Highlander”

Por causa do filme com o Sean Connery que todo mundo da minha geração assistiu, classificamos como “Síndrome de Highlander” a sensação de imortalidade, própria da juventude, residente na fantasia humana, escondida dentro de cada sonhador, capturada e aprisionada em cada realista que perambula por aí.

Coincidentemente, é também denominada na Medicina “Síndrome de Highlander”, uma doença que retarda o amadurecimento e inibe o envelhecimento e foi diagnosticada num jovem coreano “Hyomyung Shin” que aos 26 anos, aparenta ser criança, talvez com 11 anos. Ele é apelidado de “Peter-Pan sulcoreano”. Nós mulheres dizemos que todos os homens têm um “Peterpanzinho” dentro de si, varia a percentagem.

 

A essência da vida e a imortalidade presumida

Eu sou a criança que fui. Minha criança cresceu, engordou, sofreu, perdeu, mas ela sonha dentro de mim. Ela me chama, me consola e inspira e “esperanta”. Preciso preservar o que há de mais belo em minha essência.

Recentemente, duas crianças de dez e doze anos que frequentam nossa igreja saíram para a rua a fim de “descolar” uma comida. Uma tem falta em casa, outra, a irmã mais velha, lhe negara o preparo. Elas não têm medo. Será que confiam em todas as pessoas da rua? Será que voam ou correm em velocidade excepcional para escapar de qualquer encrenca? Acabaram sendo recolhidas a um abrigo e a família foi contatada três dias depois. Sofremos. É certo que a imortalidade as acompanha de algum modo, a presumida.

 

Os jovens, os pais e a adrenalina

Outra característica a ser considerada é a infinitude que transcende tempo e espaço. O conceito de acabar, de desgastar, parece muito distante daquelas crianças e de jovens viciados em adrenalina que perseguem os limites do corpo e da emoção a custos altos. Humanos que têm medo não experimentam, não arriscam. Vivem mais, talvez.

Ah... Lembro que não dei um skate ao meu filho. Ele queria muito. Não dei. Tive medo. Na verdade, tive certeza de que ele iria se quebrar ou morrer. Não quis que ele servisse como soldado, depois. Achei que iria atrasar a faculdade e se matar também. Posso ter sido ridícula. Acho que fui. Ninguém tem maior noção de finitude que mãe... e pai. Vou carregar a culpa, mas, como dizia o Chaves (não o Hugo, o do “8”), “Eu aguento”. Pior foi meu marido que nunca construiu um tal foguete de sucata com ele e se consome de culpa até hoje, porque o tempo é uma armadilha. A noção do tempo é a chave, deste minuto, desta era e da nossa existência.

“Quando se é jovem, os dias voam e os anos se arrastam; quando se é velho, os anos voam e os dias se arrastam” - não dá pra saber a origem deste dito.

Já estou vivendo essa última concepção. O tempo é relativo e nós nos fixamos em determinados pontos. Criamos calos emocionais, tromboses psíquicas, acumulamos material em cima de um trauma, de um erro, de uma culpa. E voltamos repetidamente, viajamos no tempo e visitamos nossas culpas e traumas. Ah! A diferença? Trauma é falta dos outros, culpa é por nossa conta. Talvez...

 

Tempo: Chronos

Ensina-nos a contar os nossos dias, pode estar relacionado a medir, registrar, narrar ou administrar o tempo que temos, os dias, os momentos... não os tic-tacs, isto é, o chronos .

Minha avó estava doente e entrei na escala para o controle dos remédios dela à tarde, depois da escola, acho que eu tinha 11 ou 12 anos. O relógio era meu companheiro de vigília, tiquetaqueando aqueles intermináveis minutos entre um remédio, um livro, outro remédio, o lanche, a letargia, o sono, o medo de perder a hora, de errar o número de gotas, de marcar a coluna errada... Eu li “O Homem que Ri” e outros títulos de Victor Hugo, entre os tics e os tacs, mas, até hoje, esse som é reconfortante para mim. Poderia ser torturante, mas não é. Vai explicar! E tomei gosto pelo autor.

Pensando em contagem de tempo, não deixo de considerar que antes do Dilúvio era diferente, ou aconteceu realmente algo que nos encurtou a vida humana. Tipo uma mudança no eixo e no magnetismo da Terra que teria, ao mesmo tempo, provocado o dilúvio universal, criando os atuais pólos Norte e Sul e acabando com uma bruma de vapor e nos expondo aos raios UVA e UVqualquercoisa que nos matasse mais rápido, junto com os radicais livres, a gordura trans e o açúcar, obviamente.

Um ano em novecentos tem um décimo do valor de um em noventa. Deveria considerar a intensidade da vida em detrimento da extensão?... Em música, um parâmetro útil para ilustrar o valor qualitativo da vida é o da Densidade, a quantidade de informações, de som e silêncio, de vibrações de um trecho. Não é pela quantidade que se garante a emoção ou a beleza. Aliás, uma das músicas mais belas que existe: a “Lacrimosa” de Mozart tem poucas notas; triste e bela.

 

O joelho e o protetor solar aos vinte anos

A evolução da noção de imortalidade acontece quando nos voltamos para o metafísico. Sou mais imortal a cada dia que me aproximo do meu derradeiro encontro com minhas certezas e desconfianças sérias. Sou mais eterno quando exercito minha fé. E morro para, finalmente, entrar na vida eterna.

A idade deveria ser uma contagem regressiva, ou uma avaliação estatística de probabilidades da finitude de cada um. Talvez nos preocupássemos mais com o joelho e o protetor solar aos vinte anos.

Então, os jovens sofrem de uma falsa imortalidade física e os mais experientes, de uma depuração metafísica. Ou deveriam.

 

Tempo: Kairós

O profeta Joel diz na Bíblia que os filhos e filhas iriam profetizar, os jovens teriam visões e os velhos, sonhos. Quando eu era garota (e desaforada), uma mulher da igreja constantemente trazia para minha mãe informações oníricas com imagens fantásticas e pretensamente proféticas – sem tirar a possibilidade de que fossem – e eu, alvo de um de seus sonhos, disse a ela: – “Pra ter tanto sonho, deve dormir muito!” Fato: quem sonha dorme, quem vê está consciente.

O contexto dessas visões, sonhos e profecias em Joel está ligado ao “derramar” do Espírito de Deus a partir de um evento: a plenitude da Graça de Deus numa era chamada de Nova Aliança, na qual todos conhecem o Senhor do Universo. Esses jovens veem a realidade, não se enganam? Esses velhos voltam a sonhar? Esses filhos e filhas trazem uma mensagem divina? Uma nova situação? Uma nova organização? Crianças nos dizem o que fazer e como agradar a Deus? Neófitos enxergam, entendem? E velhos entregam-se ao sonho? Parece invertido? Parece loucura? Então é perfeitamente lógico pra Deus: o Kairós.

 

Tempo: Aión

Perto do Espírito de Deus, mergulhado nele, envelhecer não é findar, é estar mais perto do sonho de Deus. Ser jovem e forte é ser capaz de enfrentar o mundo, o concreto, sem ser deglutido por ele. Ser criança é trazer a vontade e a voz de Deus. Vivendo hoje o Aión.

Ah! Gostaria de viver nessa era. G o s t a... r i... a... Hã? Estou vivendo? Mesmo?... É, estou.

* Else Vergara é educadora, musicista e líder na Igreja Metodista Água Branca, na cidade do Rio de Janeiro.

Atualizada: Segunda, 05 Outubro 2015 09:08