banner entender biblia sagrada estudo bibllico 728x90

correio amoroso, usina de crime e gestão de presídios, a realidade do sistema penitenciário no Brasil

Várias são as formas de tentar melhorias no sistema penal brasileiro, contudo, poucos são os resultados. Os jornais O Globo, JB e a Folha de São Pauo mostram um pouco dessa triste realidade do órgão que tem como dever "recuperar" o preso. A seguir, na íntegra, as matérias. O Globo (Rio): Estado terá nova escola de gestão penitenciária O governo do estado vai inaugurar quarta-feira a nova Escola de Gestão Penitenciária, para aprimorar a formação de agentes. Antes localizada no complexo da Rua Frei Caneca, a escola ocupará um prédio que está sendo reformado, ao custo de R$ 400 mil, na Rua Senador Dantas, no Centro. O curso de formação de agentes passará a ter três meses (eram apenas 15 dias) e incluirá disciplinas como direitos humanos e controle de distúrbios, a cargo da PM. Ainda este ano, 1.400 agentes passarão pela escola fazendo curso de reciclagem de 80 horas. Mas o primeiro curso de formação de inspetor de segurança penitenciária na nova escola está previsto para começar em janeiro, com uma turma de 200 homens e 50 mulheres aprovados em concurso público a ser realizado em 29 de novembro. JB (Rio): Correio amoroso além do cárcere Sabrina Netto (Especial para o JB) - "Tenho 39 anos e sou moreno claro. Gostaria de receber cartas de mulheres evangélicas para construirmos saudáveis relacionamentos". A.B. - Desipe - HR. Ele está há dois anos e cinco meses preso, por homicídio, no Hospital de Custódia e Tratamento Henrique Roxo, em Niterói. Há quatro meses, A. tomou coragem e anunciou no Cantinho do Coração, coluna do Metamorfose - jornal trimestral do sistema penitenciário do Estado, que recebe, mensalmente, cerca de 140 pedidos de anúncios românticos de detentos. Foram enviadas para ele quatro cartas, mas a sinceridade de uma delas chamou a atenção. - Fiquei um pouco encabulado, mas todo mundo colocava anúncio, então tomei coragem. As outras três que responderam eram religiosas, mas gostei da sinceridade dela, que disse: "Não sou evangélica, e, aí, vai querer ou não? ". Com as outras, eu vi que não tinha futuro, mas ela era diferente. Eu a imagino, como descreveu em uma carta, morena de cabelos na altura dos quadris - idealiza A., que espera encontrar L. o mais rápido possível para "resolver a vida" longe das grades. O escritor pode ser como quiser, mas vai ter que investir na conquista e convencer em algumas linhas - que podem lhe render uma história de amor, como outra qualquer, não fosse por estar atrás das grades. Para uma ou mais destinatárias, palavras de carinho, de erotismo, promessas e descrições do que é, ou apenas gostaria de ser, vão preenchendo o conteúdo das correspondências. Tentar a sorte no amor pelas cartas não significa ter que ser bom com as palavras. Desempenhar o papel de "escrevedor oficial" de cartas ajuda quem é mais "letrado"a conquistar vantagens nos produtos básicos para a vida atrás das grades. Mas desde que o escritor não se confunda. O cargo, porém, não se restringe a redigir mensagens amorosas. Ele acumula também o papel de aconselhador de outros presos que não obtiveram sucesso nas investidas e, com isso, acaba ganhando mais um cliente. - Tinha um preso que, por ter letra bonita e boas idéias, escrevia a serviço de vários outros colegas que queriam se corresponder. Ele chegou a fazer um escaninho para cada um dos clientes que se correspondiam com mais de uma mulher para que, quando escrevesse, lembrasse das particularidades de cada uma delas. Ele era bom nisso, nunca trocava uma pela outra. E, como tinha poucas visitas, mantinha-se no presídio com o que recebia pelo trabalho - conta a psicóloga da superintendência de saúde da secretaria Estadual de Administração Penitenciária, Nádia Degrazia Ribeiro. Como em qualquer relação virtual, uma fotografia não é a certeza da identidade de quem escreve. Segundo Nádia - que elaborou um estudo sobre correspondências amorosas na prisão, no Presídio Lemos de Brito, no Complexo Frei Caneca, no Estácio, em 1997-, um interno que se correspondia com uma mulher de classe média resolveu enviar uma foto de um colega de cela, que considerava bonito. Um belo dia, ela, seduzida pela palavras que lia, resolveu visitá-lo de surpresa e levou vários presentes. A visita, claro, terminou em decepção. - Ela teve uma crise nervosa. O homem dos sonhos dela não era ele. Uma coisa é a palavra, depois a realidade do encontro. Mesmo que mande uma foto verdadeira, sempre vai haver o risco - explica a psicóloga. M.L, 32, está há cinco anos detido em medida de segurança por homicídio, no Henrique Roxo. Ele é um dos nove internos da unidade que trabalham sob orientação da psicóloga e diretora do Metamorfose, Ângela Conrado. Uma das dezenas de cartas lidas por M. chamou sua atenção pela "letra bonita e conteúdo sensível". Ele não hesitou, respondeu ao anúncio e não publicou a carta para evitar concorrência. Há três meses, começava a amizade com uma interna de Bangu 7. Em páginas e páginas, mesmo sem o consenso da família dele, os dois prometem ainda muita manifestação de carinho, senão um próspero namoro. - Fico ansioso e idealizo como deve ser seu rosto. A pena dela, por furto, termina em dezembro. Vamos nos encontrar logo. Mas, antes disso, vou mandar uma foto minha no aniversário dela, semana que vem. Quem sabe eu a encorajo a mandar uma foto também? Ela escreve mais que eu. As mulheres são mais sinceras. É como se fosse uma terapia a dois - relata M.L. Segundo Nádia, é possível perceber nas cartas trocadas as estratégias de conquista, com o uso das palavras certas. Depois de três cartas, em média, a relação se solidifica, e o preso já pergunta sobre a família da namorada. É então que o sujeito da carta muda, e começa a aparecer o pronome na primeira pessoa do plural - nós. - Teve um caso em que, depois de algum tempo, a mãe dela mandava Bíblia, cartas e fazia visitas para ele, que chamava os filhos da mulher de seus também. Mecanismos de relacionamento são parecidos dentro e fora da prisão - revela Nádia. O interno A.C, 45, há dois anos e um mês detido na unidade por assalto, prefere não se corresponder com internas, pois visita a família fora do presídio na Visita Periódica ao Lar (VLP). No trabalho de dinâmica de grupo em forma de círculo, com a psicóloga e uma estagiária - quando lêem as cartas enviadas ao jornal e discutem sugestões - recebeu um pedido de anúncio que teve a publicação vetada. - Uma interna mandou uma declaração de amor para uma mulher e para um homem. As duas eram iguais, só mudava o nome do destinatário. E ela queria que fossem publicadas na mesma edição. Escrevi uma carta-resposta pedindo que ela optasse e aí colocaríamos no Metamorfose - lembra A.C. Enquanto alguns internos se correspondem também com mulheres em liberdade, as detentas só conseguem manter o contato por cartas com presos. - Basta olhar a fila dos presídios femininos e masculinos para entender. O maior número é de mulheres, sejam mães, namoradas ou amantes. Elas são mais solidárias na dor. O homem se envergonha mais rapidamente da companheira presa e não costuma estabelecer novos contatos com internas - analisa a presidente da Associação dos Familiares e Amigos de Presos, Simone Barros Correa de Menezes. Segundo Ângela Conrado, o jornal, criado por ela há sete anos, não tem partido político, nem cunho religioso, e respeita opção sexual. - Às vezes aparecem em textos chavões de facções criminosas que eu não reconheceria. Os internos identificam e tiramos qualquer apologia - conta a psicóloga. Folha SP (Brasil): Saiba por que a cadeia é usina de crime JOSIAS DE SOUZA (DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA) - A criminalidade é questão das mais discutidas. Exausto de tanto debate, o Brasil se imagina diante de dilema sem solução. Engano. Na verdade, o país nem sequer enxergou o problema. Pior: talvez não queira enxergar. Pede-se mais polícia e mais presídios. Como se a cadeia fosse o fim do problema. Bobagem. É no cárcere que a encrenca começa. A despeito dos grupos de extermínio, não há entre nós a pena de morte formal. Nem a prisão perpétua. Ou seja, quem sobrevive à cana está condenado à liberdade. Desnecessário qualificar as cadeias brasileiras. Qualquer zoológico oferece estadia mais decente. Tratado assim, como sub-bicho, o preso vira uma fera. E ganha as ruas. Documento entregue às principais autoridades da República em janeiro de 2003 informa: 70% dos 295 mil presos brasileiros são reincidentes. O texto foi produzido por auditores do Tribunal de Contas da União. Analisaram-se dados relativos à fase de 2000 a 2002. Quem lê o trabalho percebe que a violência não é fruto de improviso. Nossas cadeias são deliberadamente estruturadas como escolas do crime. Algumas informações expostas no relatório: 1) virou letra morta a Lei de Execução Penal, de 1984. Contém normas de "prevenção" ao crime e "ressocialização" do criminoso. Estabelece os "direitos" do preso -educação e trabalho, por exemplo; 2) "as penitenciárias não foram planejadas para atividades de educação, profissionalização e trabalho." Faltam salas de aula e oficinas; 3) há no país 46.514 agentes penitenciários. Só 5.449 atuam em atividades de "ressocialização. Os demais 72,5% dedicam-se à segurança; 4) visitaram-se 18 cadeias em nove Estados. Entrevistaram-se 108 presos. Enviaram-se questionários a todas as prisões de regime fechado. As respostas indicam que 77% da população carcerária não estuda. Onde há ensino, ele é precário e descontinuado; 5) São Paulo guarda em seus calabouços 72.140 criminosos (40% do universo carcerário nacional). Só 12.500 (17%) estudam. Registrou-se percentual idêntico no Distrito Federal, Ceará, Paraíba e Bahia; 6) em Estados como Espírito Santo, Acre, Rondônia, Goiás, Amazonas e Pará só 7% dos presos têm acesso a educação; 7) o Paraná, campeão de civilidade, oferece ensino a míseros 31% de seus detentos. Seguem-se Minas (30%), Mato Grosso e Maranhão (ambos com 28%) e, mais atrás, Rio Grande do Sul, Amapá e Alagoas (todos com cerca de 20%); 8) a qualificação profissional é virtualmente inexistente. Em São Paulo, "se aproxima de zero". Nos Estados mais bem estruturados passa de 50% o número de presos mantidos no ócio. O "direito" ao trabalho converteu-se em "privilégio"; 9) o preso-trabalhador deveria receber pelo menos 70% do salário mínimo. Nem sempre recebe. Convênios com empresas privadas são, em muitos casos, desvirtuados. No presídio feminino de Brasília, por exemplo, "empresas se instalam de maneira informal". Flagraram-se detentas trabalhando sem receber; 10) contam-se nos dedos de uma mão as experiências positivas implantadas nos Estados. São programas oficiais, parcerias com entidades como o Sebrae e convênios com empresas. Mas "as boas práticas ainda não estão devidamente consolidadas"; Ouvido, Angelo Roncalli, diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Ministério da Justiça), diz: "A visão atual privilegia a segurança, atividade meio. É preciso migrar para um sistema que contemple a ressocialização, atividade fim. Se fizermos tudo certinho, em 20 anos o quadro pode estar melhor". Gerência de presídios, lembra Roncalli, é obrigação dos Estados. Brasília ajuda pouco. No orçamento de 2003 há R$ 217 milhões. Só R$ 2 milhões vão para a assistência ao preso. O resto financiará a construção e reforma de cadeias. Em 1995, havia no país 95 mil presos. Hoje, há 295 mil. Só São Paulo faz 1.500 novas detenções a cada mês. "O governo paulista teria de construir três novos presídios a cada 30 dias, o que não ocorre", contabiliza Roncalli. "Enquanto não for resolvido o problema da superlotação, fica difícil investir em outra coisa." A discussão sobre a necessidade de "humanizar" as prisões é coisa do século 18. A conveniência da "ressocialização" do criminoso tonificou-se no final do século 19. Atrasados em mais de um século, ainda não acordamos para o problema. Por sorte, temos os pés no chão. E as mãos também. Em futuro próximo, teremos casas com portas a prova de canhão. Seu filho o identificará pelo olho mágico. Você dirá a senha. Em 15 minutos, ele dará as cinquenta voltas na chave. Mais 20 minutos e todas as trancas estarão destravadas. Tempo suficiente para você, precavido, levar a mão ao revólver. No interior do quarto de TV blindado, enterrado no segundo subsolo de sua casa-fortaleza, você verá no noticiário um flash, ao vivo, sobre a 35ª rebelião carcerária das últimas 24 horas. Antes de dormir, perguntará à sua mulher quantas vezes ela foi assaltada no dia. "Só sete pela manhã e nove à tarde." E vocês dormirão aliviados.

Missões Urbanas

Assine agora! Boletim especial gratuito Soma Missões Urbanas!

banner missoes urbanas evangelismo 728x90