Pesquisa descreve como são e o que pensam os jovens de Sergipe

O relatório final da pesquisa “Jovens de Sergipe – Como são eles, como vivem, o que pensam”, realizada entre 2005 e 2006 por Bernard Charlot, consultor da Unesco-Brasil, e coordenada pela Secretaria de Estado do Combate à Pobreza e da Assistência Social, no governo de João Alves Filho, não reeleito, oferece interessante material para quem quer compreender melhor a vida da população sergipana na faixa etária entre 15 e 29 anos. O líder de juventude de uma igreja, por exemplo, especialmente se for do Nordeste, não deveria deixar de ler atentamente o estudo para, assim, não apenas conhecer as informações gerais sobre as características, definições e interesses deste grupo, mas para analisar e montar estratégia de abordagem para ensino da mensagem cristã e para oferecer a ele a oportunidade de Deus transformar sua vida. Sobre religião, a pesquisa constatou que apenas 1,8% dos jovens sergipanos se declara ateu. A religiosidade predominante é a católica (71%). E 11,5% da juventude sergipana é evangélica. Em relação ao número de participantes da igreja evangélica, a tabela não deixa muito clara a informação, pois confunde as diferentes denominações e nomenclaturas de grupos evangélicos, separando “evangélicos” (7,2%), “protestantes” (1,7%), “pentecostais” (0,8%) e “batistas/metodista/presbiteriana” (1,8%). Perguntados se eles confiam nas instituições e pessoas, de acordo com o papel que cada uma delas desempenha na sociedade, os jovens apontaram: a que recebeu mais crédito foi a família (94,9%), os professores (83,5%), a Igreja Católica (71,7%), os líderes religiosos (56,1%) e a igreja evangélica (47,8%). Entre as menos confiáveis destacam-se as assembléias legislativas, vereadores, partidos políticos e o Congresso. É bom lembrar, de acordo com o autor, que a pesquisa foi realizada na época em que se multiplicaram as denúncias envolvendo deputados e antes das CPIs de 2005. Diferentemente do que se pensa em relação às famílias sergipanas quanto às escolhas, opções e vontades dos jovens, existem muitos comportamentos permitidos pelos pais, tais como: a escolha da religião, namorar, sair de casa com os amigos para passear ou ir ao cinema, vestir-se da forma que quiser... Embora existam outros que são terminantemente proibidos: consumir drogas, fazer tatuagens ou colocar piercings em diferentes partes do corpo, fumar, dirigir veículos sem carteira de habilitação, dormir com o namorado ou a namorada em casa, consumir bebida alcoólica... Segundo o autor, “a sociedade sergipana não está parada, acompanha o movimento dos costumes e normas no mundo.” Ao fazer uma avaliação qualitativa entre a sua geração e a geração de seus pais os jovens disseram que “a vida melhorou em tudo, fora das condições básicas da sobrevivência: segurança, trabalho e renda. Melhorou a possibilidade de estudar, de divertir-se, da participar da vida política, a liberdade religiosa e sexual”. Quanto à homossexualidade, a atitude dos jovens poderia ser resumida da seguinte forma: “Não tenho preconceito, mas, Deus preserve, não quero ter um filho ou uma filha homossexual”. Quais os comportamentos evitam que uma pessoa seja contaminada pelo vírus HIV? 81,5% responderam que a camisinha é o método principal. Contudo, o que chamou a atenção na pesquisa foi que o segundo meio mais destacado de proteção contra a Aids foi a fidelidade. 39,3% dos jovens sergipanos consideram que ser fiel ao parceiro ou a parceira é um comportamento que evita a contaminação, o que pode ser “resposta do discurso da Igreja Católica”, afirma o autor. Além de apresentar uma introdução baseada em fundamentada bibliografia sobre juventude, a pesquisa estuda a relação dos jovens, entre 15 e 29 anos, que compõem cerca de 50% da população do estado de Sergipe (em torno de 270 mil pessoas), o estudo, o trabalho, a família e a saúde, assuntos que formam 80% dos motivos de um jovem sergipano estar satisfeito ou não em relação à vida. Outra discussão relatada diz respeito à decisão de qual seria a delimitação da faixa etária em que se encontra a juventude. Os pesquisadores relacionaram citações de estudiosos e listas de características que ajudam a entender melhor o que determina a passagem de jovem a adulto, mesmo afirmando não existir “critério biológico ou psicológico seguro para recortar essa faixa etária em etapas”. Conheça mais algumas informações apresentadas no relatório: Apenas 6% dos jovens sergipanos freqüentaram ou freqüentam o ensino superior, e 52% destes (na faixa de 20 a 24 anos, chegando a 74% com 25-29 anos) também trabalham, ao mesmo tempo em que cursam a faculdade. Nas respostas à pergunta “por que e para que vão à escola? Prazer ou necessidade?”, a maioria disse que vai à escola para conseguir um bom emprego, e muitos usaram a expressão “para ser alguém na vida”. Em particular, quanto às jovens, algumas declararam que, antes mesmo do sonho de casar, a formação profissional e a independência vêm em primeiro lugar. A maioria das mulheres declara que não trabalha por falta de indicação, e não por opção ou por cuidar do lar. 66% das moças não trabalham e 36% nunca trabalharam. “Em outras palavras, o desemprego das jovens sergipanas é desemprego mesmo, não é vocação de dona do lar.” Cerca de 40% dos jovens sergipanos entre 15 e 29 anos estão trabalhando, 30% já trabalharam, mas não estão trabalhando e 30% nunca trabalharam. Segundo a pesquisa, “cerca da metade dos jovens sergipanos não possui renda pessoal, mais da metade depende exclusiva ou principalmente da renda de outras pessoas, apenas o terço ou o quarto tem um trabalho regular, outro quarto corre atrás dos “bicos”. Dentre os que têm renda, mais que a metade ajudam a família a pagar as contas da casa. As três qualidades fundamentais consideradas necessárias pelos jovens sergipanos, segundo o relatório, para encontrar um emprego são: o nível de escolaridade, experiência profissional e a recomendação de pessoas influentes. Ao serem perguntados sobre as razões para não conseguirem o emprego, os motivos mais destacados pelos jovens foram os seguintes: 18% afirmaram que não estudaram o suficiente, 13,1 alegaram que a idade dificulta, 13% indicaram a situação atual do país, e 12,1% mencionaram a falta de experiência profissional somados a 13% que disseram “porque apenas estudam”. Quase dois terços dos jovens sergipanos preferem permanecer na própria cidade, o que comprova que eles constam mais da categoria “enraizados” do que da categoria “nômades”. (55,4% nasceram na cidade onde vivem). Os principais motivos da permanência: família, amigos e falta de condições. Apenas 13,5% das casas dos jovens têm ao menos um computador; 10% das casas têm uma empregada; Um automóvel para cerca de 25%; Em 74,6% das famílias dos jovens moram no mesmo lar com 3, 4, 5 e 6 pessoas; Entre os jovens sergipanos com 15 até 29 anos, 71% moram com os pais; 79,6% dos jovens possuem pais vivos, somente 2,7% são órfãos de pai e mãe. Uma interessante diferença entre o grau de instrução e a classe econômica é que quanto mais instruído e rico for o jovem, maior é a probabilidade de ele ser solteiro. Isso porque jovens mais ricos permanecem estudando por mais tempo e evitam constituir um casal fixo até terminarem seus estudos e conseguirem um emprego. Já os jovens das classes mais baixas se estabelecem na vida matrimonial mais cedo. “Apesar da urbanização e dos avanços das técnicas e políticas de controle da natalidade, permanece entre os jovens sergipanos esse traço característico da cultura rural e da cultura urbana dos pobres: quanto mais pobre, mais filhos.” Cerca de 30% dos jovens sergipanos entre 15 e 29 anos têm filhos. Mudou um pouco a estrutura da família dos jovens sergipanos. Os jovens “moram juntos” antes de casar, mas o casamento sobrevive como norma. A pesquisa informa também que o núcleo básico da família sergipana é constituído pela mãe e pelos filhos, uma vez que um quarto dos pais não moram com os filhos, ou porque nunca moraram com o filho ou a mãe, ou porque se separaram. Na questão da violência, cerca de 70% dos jovens sergipanos nunca foram abordados pela polícia e, entre os que já foram, 54% consideram que essa abordagem foi feita de forma respeitosa. A polícia aborda os jovens de todos os graus de escolaridade e classes sociais, o que é democrático, mas evidencia também que, quanto menos instruídos e mais pobres, mais a polícia tende a desrespeitá-los, um problema do mundo inteiro.

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