Líder indígena luta pelo fim do infanticídio: direito à vida independe da etnia

Defender o direito à vida das crianças e o fim do infanticídio entre os índios é a luta travada pelo líder indígena Eli Ticuna. Em muitas tribos a tradição conduz à morte os bebês que nascem com qualquer tipo de deficiência.

Sensível ao sofrimento que esta prática gera, Ticuna elaborou um projeto de lei que garante a proteção dos direitos das crianças indígenas e aguarda votação no Congresso Nacional. O site Hakani, que difunde a campanha pela aprovação da lei, cita o artigo “Não há morte sem dor”, do missionário e antropólogo Ronaldo Lidório, como parte da argumentação pela universalidade ética. Lidório defende o direito à vida e o direito dos indivíduos questionarem e interferirem sobre valores culturais. Também propõe a ação do Estado em diálogo com as etnias indígenas. Confira a carta de Eli Ticuna à sociedade brasileira.

“Centenas de crianças indígenas foram rejeitadas por suas comunidades nos últimos anos. Condenadas à morte por serem portadoras de deficiências físicas ou mentais, por serem gêmeas, ou filhas de mãe solteira, elas foram enterradas vivas, envenenadas ou abandonadas na floresta. Muitas eram recém-nascidas, outras foram mortas aos 3, 5 e até 11 anos de idade.

“A prática do infanticídio causa um grande sofrimento nas famílias das crianças. Conheço muito bem a dor que essas famílias enfrentam quando são forçadas pela tradição a sacrificar suas crianças. Mas conheço também mulheres corajosas que enfrentam a tradição e literalmente desenterram crianças que estavam condenadas à morte. Essas mulheres, mesmo sem nunca terem estudado direitos humanos, sabem que o direito à vida é muito mais importante que o direito à preservação de uma tradição.

Por causa do sofrimento do meu povo indígena, e da coragem dos meus parentes que se opõem ao infanticídio, eu me dispus a trabalhar na elaboração de um projeto de lei. O primeiro esboço saiu da minha cabeça. Numa segunda fase, contei com o apoio de uma equipe de especialistas e de um deputado federal sensibilizado pela causa.

“Como indígena e defensor dos direitos fundamentais, conclamo a sociedade brasileira, índios e não-índios, a participar da Campanha Lei Muwaji. A primeira coisa que peço é que você assista ao documentário Hakani – a história real de uma menina suruwaha que foi enterrada viva, mas foi resgatada por seu irmão de nove anos. Você vai se comover com a luta desse menino para salvar a vida de sua irmãzinha. Depois de assistir ao filme, ajude-nos a pressionar o governo para que a Lei Muwaji seja votada com urgência. Faz exatamente um ano que o projeto de lei está parado na Comissão de Direitos Humanos, o que mostra o total desinteresse do Congresso pela causa indígena. Temos menos de um mês para fazer com que a comissão vote o projeto ou ele cairá no esquecimento. Nós precisamos da sua ajuda para superar essa prática terrível que ceifa a vida de centenas de crianças inocentes”.

O documentário sobre a menina que foi resgatada pelo irmão está no site Hakani, que reúne outras informações sobre infanticídio e a campanha pela Lei Muwaji.

O texto “Não há morte sem dor”, de Ronaldo Lidório, está disponível em seu site e traz visões antropológicas contra e a favor da intervenção do Estado, além da posição do missionário.

Atualizada: Sábado, 30 Agosto 2014 11:25

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