Comer, Rezar, Amar – Viver e não ter a vergonha, nem a culpa...

  • Por Else Vergara
  • Publicado em família
  •  

Conversava numa roda de colegas (todas, meninas) e o assunto era o prazer: que nos motiva, ou bloqueia, o que excita os homens e, se existe alguma coisa que os faça desanimar do sexo. Uma disse que o marido ficava animadíssimo, mesmo com febre, ou em noites de filho doente. Outra, que ela mesma, quando muito aflita, sente a necessidade de aliviar a tensão e busca o parceiro.

Alguém disse que precisa de "céu de brigadeiro", outra que sabia de alguém que se sente culpada se o filho está no cômodo ao lado. E assim foi. Facilitadores, dificultadores e impeditivos. Terrenos da vida, estradas, caminhos.

Casamento e sexualidade

Lembrei da história narrada por uma psicóloga, de que dera uma palestra sobre sexualidade num encontro evangélico e descobriu, um tempo depois, que fornecera a um determinado casal, naquela ocasião, a chave do prazer sexual pela primeira vez em 30 anos. Como pode? Eles não repararam que faltava alguma coisa ali? Essa mulher – principalmente ela! – achava que era assim mesmo? Que o problema estava com ela? Que ela não conseguia, que não era capaz? O prazer é ficção, então. A felicidade dela era o bem-estar da família, e daí por diante.

A gente luta pela felicidade, mas age contra ela o tempo todo. Quem se entrega à murmuração e ao "muxoxo", no estilo "Hardy Ha-ha" – "ó vida, ó azar!", tem o copo meio vazio o tempo todo. Não se permite, não consegue enxergar o lado bom, não relaxa, não goza a vida.

O que é a felicidade?

Se a felicidade é um exercício, ela é o meio, não o fim do caminho nem o topo do monte. E, convenhamos, nem daria pra ficar o tempo todo no topo. Quem faz alpinismo, escala e desce, não mora lá. Prefiro uma felicidade mais acessível, mais cotidiana, mais próxima, mais fácil, menos bipolar. Ah, tem gente que se impulsiona afetivamente para o cume da felicidade e escorrega no barranco das frustrações em seguida. E, enquanto tiver energia, mantém esse padrão. É estilo. Sexo é estilo também. Estilo é essência. Essência é verdade. Sem adereços, sem acréscimos. Se você não for verdadeiro consigo mesmo, não poderá ser essencial.

"Comer, Rezar, Amar", o filme

Assisti ao filme "Comer, Rezar, Amar", baseado no livro de mesmo nome de Elizabeth Gilbert. Achei chaaaato... Não me disse nada! Parei pra pensar: porquê? A autora não conseguia comer com prazer, por causa da ditadura da dieta. Perdera a confiança nos homens por ter se decepcionado com o marido. Precisava de um encontro consigo mesma para se libertar das suas culpas, dos seus medos, para ser feliz e poder andar de bicicleta, sorridentemente, e sentir prazer e confiar, e sonhar...

Alguém que tem mesmo felicidade, precisa esfregar isso na cara dos outros?

Acho que a palavra que expressa melhor nossa noção de felicidade é plenitude. Não queremos simplesmente uma vidinha regular, queremos plenitude. Há quem pense e almeje uma irretocável perfeição. Nunca alcançará. Sinto muito, na minha opinião ela não existe. A meta da perfeição é esquizofrênica, é adoecedora. Conheci alguém que fazia uma propaganda imensa da sua plena felicidade familiar perfeita. Longe de mim, agourar, mas, chegava a despertar desconfiança. Alguém que tem mesmo felicidade, precisa esfregar isso na cara dos outros? Pode acontecer de uma pessoa professar plena felicidade, pra se convencer de que isso é real, na tentativa de construir essa verdade a partir da fala, da confissão. Seriam filhos perfeitos, marido perfeito, que fariam nossa vida perfeita? Sei não... Tendo a pensar que não posso, não tenho o direito essencial de entregar a minha felicidade a ninguém. Ela não pode depender do comportamento perfeito de terceiros. Não é justo que eu determine esse padrão de perfeição para a vida deles tampouco. É uma grande e redonda injustiça.

Há muitos anos, em meus exercícios mentais, descobri que nasci para ser feliz. No decorrer da vida, à medida que a visão de perfeição que eu tinha ia se deformando, num processo quase dadaísta e derretendo-se diante de mim, se desconstruía e ganhava contornos feios, crus, ásperos, irregulares. Percebi então que a resiliência era uma conquista; a sobrevivência, um privilégio; o prejuízo menor, um ganho.

O prazer, a culpa e o medo

A pior porcaria, a coisa mais suja, o maior mal à felicidade é a culpa. É ela que nos impele a permitir que nos violentem, que nos impulsiona a sabotar nossa alegria, nosso prazer de viver e de construir. Ela destrói nossos castelos.

Erramos muito e, às vezes repetimos erros. Apanhamos da vida e aprendemos lições. Perdoar-se é divino, é viabilizar-se. O medo nos congela. Temos medo da culpa. Temos medo das consequências das decisões que tomamos e... – "Estátua!". Certamente a estátua é feliz, pois não sofre. Ah! Existe a noção meio boba de que a felicidade é a ausência do sofrimento. Essa é a noção mais pobre, mais rala. Nem comento. Construir e frutificar são a dinâmica da vida. Sem isso, não há vida, é estagnação, é morte o que há. Viver o medo é antecipar o estado mórbido de inatividade e improdutividade.

"Dez por cento" dos alicerces do casamento

Como adoro inventar estatísticas, inventei uma para o sexo: são os dez por cento mais importantes dos alicerces de um casamento. Posso não ser tão freudiana a ponto de achar que ele é o nosso motor vital, mas não vejo como sustentar um casamento sem prazer. Há quem substitua a satisfação sexual por outras coisas. Nossas repressões de estimação geralmente nos prendem à mediocridade. Alguém aí sonha com prazer medíocre? Duvido.

Uma outra visão da sexualidade

Só que, sim, muita gente vive mediocridade afetiva. Sua libido é um impulso, gera movimento, uma demanda a ser atendida, uma necessidade. O estudo sintético da Drª Silvia Rocha(1), nos mostra a visão freudiana da sexualidade, inicialmente centrada em si, construída pela descoberta sensorial, amadurecendo a capacidade de sentir prazer. A evolução erótica seria alcançar a capacidade de obter prazer num objeto de desejo externo a si. Diferente de Freud, Jung sugere que posso ser impulsionado e energizado por outras forças vitais. Pessoalmente, podem fazer-se trocas, substituir o sexo por outra gratificação qualquer e ser feliz, mas isto não seria um casamento, seria uma parceria, uma sociedade, apenas. Obviamente, circunstâncias impeditivas pedem a criação de novos caminhos.

A visão mais complexa de Lacan e Hegel, descrita por Márcio Peter de Souza Leite(2), não surpreende tanto, quando olhada de perto, pois pode ser reduzida assim: o gozo pertence ao sujeito e, se esse gozo for subtraído dele por outro sujeito, ele perde até sua humanidade. Há muito mais que é analisado no texto citado, mas, aqui, eu me apego a essa concepção. O sujeito é o protagonista da sua história, do seu gozo, da sua alegria e do seu prazer. E o outro é definitivo para essa descoberta. É tudo relacional.

Você precisa fabricar sua felicidade. Seu prazer não depende dos outros, mas é construído com os outros. Não, não é contradição. Todos são protagonistas. Não há o papel coadjuvante. Todos recebem o primeiro prêmio. O "oscar goes to YOU".

(1) http://www.artesdecura.com.br/REVISTA/Psicoterapia/teoria_sexualidade.htm

(2) http://antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=750

* SOBRE A AUTORA: Eu sou Else Vergara, professora, musicista, casada há 30 anos, mãe e avó, humana, falha e feliz. Sou membro da Igreja Metodista Missionária Água Branca, lá trabalho com o Projeto Caminhar que apoia o crescimento pessoal e comunitário de crianças e adultos.

Atualizada: Quarta, 18 Abril 2018 11:18

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