As Mãos de João Ubaldo

No exercício de seu ofício - rima burocrática que ele abominaria-. o escritor é um solitário. Como grande escritor que era, João Ubaldo Ribeiro não escapou à regra. Dizer isso é repisar o óbvio, este inimigo mortal dos grandes criadores, que buscam revelar um óbvio ainda mais óbvio por trás daquilo de que se pensa que seja o que chamam por aí de realidade.

Parece que estou tentando imitar o estilo de João Ubaldo, mas o fato é que a solidão é a melhor companheira do criador. Deus é testemunha. Não me encontrei com João Ubaldo em vida. Fui vê-lo morto, não eu – quem sabe? – mas ele, no salão não sei como é que chamam da Academia Brasileira de Letras. Na entrada, junto ao portão principal, a imprensa, em sua letargia de quem cobre um evento como outro qualquer. Informei-me com o porteiro sobre o lugar onde estava o escritor falecido, entrei e vi João Ubaldo Ribeiro em sua solidão afinal reconhecida pela ordem natural das coisas.

Esteticamente, achei bonito o fardão que imortaliza um escritor do calibre de um João Ubaldo Ribeiro e de um Guimarães Rosa – maior do que João Ubaldo – mas que imortaliza também um José Sarney, pior do que ambos e do que os piores dentre os piores. As rosas vermelhas são as rosas vermelhas são as rosas vermelhas são a rosas vermelhas. Achei o rosto dele gordo – mas a morte não pede elegância, mas substância. A morte não faz perguntas. Apenas age.

Para finalizar, o que mais me impressionou foram as mãos crispadas de João Ubaldo. Seu rosto estava sereno. Seu fardão estava bonito. As rosas vermelhas compunham bem o cenário. A solidão, com certeza, não lhe fazia mal – ao contrário. Suas mãos crispadas, no entanto, eram a expressão de um desejo dirigido a ele próprio, a Deus ou às misteriosas forças da criação.

Por que não posso continuar criando, se a única coisa que, no final, além das pessoas a quem amei e que me amaram na v ida, foi a única razão de minha existência neste mundo de mesmices e de obviedades louvadas como a descoberta definitiva do sentido da vida e da morte?

E que no, final, eram apenas o mesmo do mesmo do mesmo do mesmo do mesmo do mesmo do mesmo. Sem solidão alguma.

Atualizada: Sexta, 19 Setembro 2014 15:33

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