Jogador antipatriota

  • Por Luciano Vergara *
  • Publicado em esporte
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Os tempos são outros e, na abertura de partidas de futebol, até vemos os jogadores brasileiros – outrora tão criticados por causa da apatia no canto e na atitude cívicos – aparentemente cantando o hino. Mas, imagina um jogador da Seleção Brasileira que não queira cantar o nosso Hino Nacional, alegando origem indígena, africana, japonesa, europeia ou qualquer outro motivo – político, filosófico, humanístico e o que mais. Este cenário ainda se pode ver na Copa, não entre brasileiros, mas como mau exemplo de outros esquetes. A deselegância brasileira foi basicamente da torcida, que, dia 27/06 em Belo Horizonte, vaiou o hino chileno, em uma demonstração de incivilidade e despreparo para eventos desportivos internacionais.

A respeito de jogadores cantarem o hino antes da partida, em uma reportagem que abordou os hinos nacionais dos países que participam da Copa do Mundo, o jogador franco-argelino da seleção francesa Karim Benzema disse que não canta o hino francês, La Marsellaise, mas que defende as cores de sua seleção. Ele chegou a explicar que, como filho de imigrantes, não acha certo cantar certas partes da letra do famoso hino, escrito e composto por Claude Joseph Rouget de Lisle em 1792 e adotado oficialmente pela França desde 1795.

A despeito da história da França em outras regiões, que revela intenções obviamente contraditórias, tanto aspectos positivos da cultura francesa – sua erudição, apuro em diversas artes e técnicas, determinação e valentia na defesa de seu território – quanto outros aspectos, estes negativos, como os abusos cometidos sob a política colonialista até fins da década de 1960, seu imperialismo belicista sob Napoleão, no início do século 19, ou as irresponsáveis experiências atômicas nas águas do Pacífico. O país legou ao mundo alguns avanços e, ao mesmo tempo, explorou países ao redor do mundo. Mas deve-se dizer que não só explorou, porém educou e continua a educar muitos povos com seu exuberante acervo artístico e intelectual, sua presença política de projeções globais.

Em que pese partes amargas e ressentidas do hino francês, é preciso entender que ele reflete um contexto: o século 18, tempo de construção da identidade e da consolidação do estado nacional. Comparando-se a outros povos de então, a França até esteve na vanguarda da evolução política e social. Pouco depois, em outras partes mais atrasadas do planeta, a efervescência política foi pano de fundo para vários hinos nacionais.

Com os movimentos anticolonialistas dos primórdios do século 19, foram produzidos hinos marciais e rancorosos pela propaganda nacionalista de muitos países da América Latina nas lutas de independência, como são exemplos Uruguai, Argentina, Chile e México. No mesmo século, outros povos passavam pela consolidação de seu território e criação de novos estados nacionais (Itália e Alemanha). No início do século 20, foi a vez de Portugal, depois os países do Bálcãs, China, Coreia e outros. O hino brasileiro, cuja música é de Francisco Manuel da Silva (1795 - 1865), do período da regência (foi composto para celebrar a abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho), e a letra é de Joaquim Osório Duque Estrada (1870 - 1927), já na fase republicana, celebra a beleza exuberante do Brasil e o valor de sua gente. A maioria dos hinos desse período têm letras ressentidas e revanchistas.

Hino e política interna

Como os países resolvem as tensões entre a confissão cívica e o ânimo de seus nacionais pode variar muito. O hino do Japão (Kimigayo), por exemplo, é uma poesia que fala da terra, da natureza e da pátria, demonstrando o abandono da vontade de guerrear. É muito bonito, mas um pouco melancólico e só em 1999 foi legalmente adotado, ficando a letra, do século 19, e a melodia, dos anos 1930, como herança do império absolutista, mesmo com a derrota na 2ª Guerra Mundial, em 1945. Já entre os cidadãos dos Estados Unidos da América, o hino é cantado com orgulho desde inícios dos anos 1800. Conhecido como The Star-Spangled Banner ("A Bandeira Estrelada"), ele tem letra de Francis Scott Key, advogado e poeta que presenciara o bombardeio britânico ao forte McHenry, em Baltimore, durante a Guerra de 1812. A letra de Key foi aplicada à melodia da canção popular inglesa "To Anacreon in Heaven" e se tornou popular entre os americanos. Mas a música só foi declarada hino nacional pelo Congresso dos EUA em 1931.

No Brasil, onde as ruas e a internet mandam recados constantes aos personagens da política, canta-se melhor o hino quando o arrepio que acompanha a emoção. Porém na França, onde cresce o número de muçulmanos e o antissemitismo, são os judeus que se arrepiam e já estão migrando para Israel, fugindo de supostas ameaças de grupos islâmicos cada vez mais organizados.

Apesar desse legado contraditório, a França foi o destino escolhido pelos pais de Karim Benzema. E é o país onde o jogador exerce sua carreira, a nação que lhe dá uma cidadania invejável, o que lhe permite uma qualidade de vida muito acima do que provavelmente teria se sua família ainda vivesse na Argélia.

Mas ao que parece, o jogador do Real Madrid não integra nenhum deles. Há quem o relacione à "Esquerda Caviar", que protesta solidariedade aos imigrantes, mas estes só entram em sua casa como empregados. Países como a Argélia são apenas para passear no verão. Para morar, nem pensar. Seja como for, Benzema ainda não abdicou da França como seu lar e dificilmente o faria.

Antipatriotismo é também uma forma de ingratidão.

Atualizada: Sexta, 04 Julho 2014 16:12

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