5 razões bíblicas pelas quais incluir o combate ao trabalho escravo no escopo da missão da Igreja

O debate entre especialistas dos governos estadual e federal, que aconteceu em São Luís no final de janeiro de 2018, sobre combate ao trabalho escravo, faz pensar sobre qual o papel da igreja também na contribuição para solucionar este grave problema. Saiba o que a Bíblia diz sobre trabalho escravo e qual o papel da Igreja no combate a este mal.

Combater o trabalho escravo é dever de todos. E, infelizmente, o estado do Maranhão ainda enfrenta com muita frequência, e principalmente nas áreas rurais, diversas situações de falta de justiça nas relações entre patrão e empregado.

A igreja cristã maranhense, assim como a do mundo inteiro, não deveria se omitir, muito menos ignorar esta questão.

É preciso que evangélicos incluam, tanto em suas orações quanto em suas ações, a busca da transformação do mundo também no que diz respeito à defesa do direito de todos a um trabalho decente.

O que a Bíblia diz

Porque se olharmos para a Palavra de Deus, veremos que tal tarefa não passa longe da missão da igreja, como alguns líderes podem sugerir em suas pregações.

Combater o trabalho escravo e defender condições dignas, justas e decentes para alguém ganhar o seu pão através do suor do rosto, é parte da missão da Igreja.

Lendo alguns versículos da Bíblia sobre o assunto, aprendemos que a Palavra de Deus condena os que, desonesta e fraudulentamente, deixam de pagar os salários dos que trabalharam para eles.

Tal ato vil chega aos ouvidos do Senhor como uma denúncia gravíssima, um clamor por justiça.

Isso está na Bíblia, no Novo Testamento, em Tiago 5.4, que diz:

"Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que vós, desonestamente, deixastes de pagar está clamando por justiça; e tais clamores chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos."

E também em, pelo menos, outros quatro trechos bíblicos, que afirmam que é pecado reter o salário dos trabalhadores e praticar injustiça contra eles.

Em Levítico 19:13, onde Deus está formando a base das relações sociais de seu povo, o mandamento é o seguinte:

"Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás: o salário diário do trabalhador não ficará contigo até a manhã seguinte."

Em outras palavras, Deuteronômio 24:14,15 reafirma este mandamento de Deus:

"Não oprimas um assalariado pobre, necessitado, seja ele um dos teus irmãos ou um estrangeiro que mora em tua terra, em tua cidade... Tu lhe pagarás o salário a cada dia, antes que o sol se ponha, porque ele é pobre e disso depende sua vida. Desse modo, ele não clamará a Yahweh contra ti, e em ti não haverá pecado."

Em Jó 24:10,11, a repreensão fica bem entendida quando ele descreve a situação dos trabalhadores da seguinte forma:

"Por falta de roupas, andam nus; transportam pesados feixes, mas continuam esfomeados..."

E ampliando a condenação da prática da injustiça contra pessoas que trabalham para alguém, a mesma Bíblia que fala do IDE e de tantas outras importantes partes da missão cristã, e que todos nós, evangélicos, lemos em casa durante a semana e nos cultos de domingo no templo, declara:

"Ai daquele que constrói o seu palácio usando de corrupção e meios ilícitos; que força seu próximo a trabalhar sem qualquer retribuição, tampouco lhe paga o salário" - Livro do Profeta Jeremias 22:13.

Vagas: quantidade x qualidade

As notícias do início de 2018 no Maranhão na questão do emprego (segundo estado que mais criou postos de trabalho no Nordeste em 2017 e de São Luís como a segunda capital em geração de empregos) devem ser comemoradas, sem dúvida.

Mas a questão da quantidade de empregos disponíveis não pode prescindir também da necessidade de ambientes de trabalho e condições dignas e decentes para o trabalhador, ou seja, que o número de vagas venha acompanhado de qualidade também.

Seminário pela promoção do trabalho decente no estado

promocao trabalho decente 2

O evento mencionado no início deste artigo foi o Seminário "Promoção do Trabalho Decente no Maranhão: Desafios e Perspectivas", promovido pela Superintendência Regional do Trabalho, com o apoio da Secretaria de Direitos Humanos do Governo do Estado (Sedihpop).

A atividade fez parte da programação da Semana Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, que no Maranhão marcou o início da segunda etapa do Projeto "Escravo, Nem Pensar", desenvolvido pela ONG Repórter Brasil, em cumprimento à meta 41 do Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo. O Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo e Dia Nacional do Auditor Fiscal do Trabalho é celebrado em 28 de janeiro.

Uma parte da descrição dos objetivos deste projeto pode muito bem ser recebida por pastores e líderes evangélicos como uma oportunidade de se envolver e participar voluntariamente das suas atividades.

Isto porque, quando menciona "formação de professores e lideranças populares para que possam, nas escolas e na comunidade onde estão inseridas, atuar no combate ao trabalho escravo", não tem como excluir a força da participação de grupos e instituições estabelecidas e presentes nos bairros e cidades, tais como igrejas e congregações.

Durante o seminário na capital maranhense, o secretário adjunto de Direitos Humanos, Jonata Galvão, e a coordenadora de Ações para o Combate ao Tráfico de Pessoas e ao Trabalho Escravo, Dayana Coelho, buscaram contribuir com ideias para reverter "o cenário de naturalização da degradância nas relações de trabalho, ainda muito comum no Maranhão, especialmente no campo, gerando um ciclo de violação de direitos humanos".

Segundo dados do Ministério Público do Trabalho (MPT-MA), em outubro do ano passado, 61,5% dos procedimentos em cursosobre trabalho em condições análogas a escravidão envolvem condições degradantes.

Para o secretário adjunto de Direitos Humanos e palestrante do evento, Jonata Galvão, quantidade de vagas e qualidade do emprego fazem parte de um mesmo objetivo: “Neste momento em que o país apresenta queda na quantidade de empregos, no maranhão fechamos 2017 com saldo positivo, com mais de 200 mil novas vagas. Isso demostra que as políticas e ações do governo do estado estão no rumo correto e além de efetivas, direcionam para a promoção do trabalho decente, mudando o cenário histórico de atraso do estado. Atrelado a isso o governo tem incentivado também ações de combate à pobreza, educação, saúde, economia solidária, produção agrícola familiar e outras”.

A Secretaria inicia em fevereiro de 2018, em parceria com a Comissão Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo (COETRAE-MA), a campanha de comunicação “Trabalho Decente na Vida da Gente” para promover o trabalho decente e conscientizar quanto às "características da escravidão contemporânea, principalmente na zona rural, onde condições indignas de trabalho ainda persistem e são tratadas com naturalidade".

Voltando ao papel da Igreja

Retornando ao tema da participação da Igreja neste processo de melhoria da sociedade, e para concluir, uma citação do grande teólogo britânico, reverendo John Stott, que, em seu livro A Missão Cristã no Mundo Moderno (Editora Ultimato, pág. 33), declara:

"Ver a necessidade e possuir o recurso impele o amor a agir, e a ação será evangelística, social ou até mesmo política dependendo do que "vemos" e do que "temos" (...) O homem que caiu entre os salteadores precisava, acima de tudo, naquele momento, de remédios e curativos para suas feridas, não de folhetos evangelísticos nos bolsos!" - Stott.

Trabalhadores e trabalhadoras em situação degradante, explorados, famintos e injustiçados, não darão muita importância ao "plano da salvação" de um panfleto evangelístico naquele momento difícil que atravessam, não acha? O que eles precisam é de quem os defenda, garanta seus direitos, dando apoio prático para saírem daquela situação com dignidade.

Evangélicos maranhenses devem não somente dar exemplo, quando na condição de patrões, oferecendo condições dignas aos seus empregados, mas também precisam contribuir para o fim desta vil prática na sociedade, através de orações e ação em nome de Jesus. Conferir, denunciar, orar e agir!

Evangélicos MA

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